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O Mundo de PopZen

23/02/2007 15:48

O que é que vamos fazer?

19 de Fevereiro de 2007 - Edição 1246
PJ Pereira

“Não tem jeito, Nizan.” Tinha acabado de ler a notícia sobre a campanha dele para dar um chega na violência. E meu e-mail de apoio moral, mas nenhuma esperança, já estava prestes a ser enviado. Lembrava principalmente do episódio que me fez, pela primeira vez, pensar em sair do Brasil: o dia em que eu e minha mulher ficamos quatro horas na mão de dois assaltantes, sob a mira de uma pistola, durante um seqüestro-relâmpago em São Paulo.

Se eu não consegui convencer aqueles dois, que estavam ali na minha frente com meu dinheiro, cartão e tudo que eu tinha, a levarem o carro e deixarem a gente ir, como é que iria fazer isso a toda essa gente que caiu no crime? Ainda mais na velocidade e emergência que Rio e Sampa precisam? Dizendo que não agüentamos mais? Reclamando que roubar é feio?

“Feio pra quem tem” — eles vão dizer — “pra gente que não tem, é a única maneira!”, e em seguida você toma um tiro na testa pra deixar de ser cheio de idéia.

Nem adianta manter a distância e ir pra novela dar lição de moral. Nem fazer camiseta de pombinha branca ou passeata na Candelária. Não tem mais conversa viável num mundo com classes tão distantes e antagônicas quanto o nosso. É problema sério — precisa de muito poder, força e dinheiro pra resolver. Nem mesmo se vendêssemos todas as nossas agências, conseguiríamos ter grana para financiar.

Mas pensei de novo antes de clicar no “send”. Quem sabe alguém não teria uma idéia qualquer? Eu não tinha. Nem tinha muito a fazer pelo João — além de gritar, de casa, o nome dele no Flamengo e Botafogo (mesmo sendo flamenguista, aquilo foi bonito). Só isso, que na prática foi provavelmente nada. Olhei de volta pro “send”. Pensei novamente na boa intenção da campanha, e mais uma vez no dia em que fui assaltado.

Em quatro horas, mesmo com tanta tensão e um revólver na costela, se conversa bastante. Até pra aliviar um pouco. Um dos bandidos, menor de idade, me contou que comprou a arma de um outro menino, que trabalhava na boca (que havia ganhado uma pistola nova do chefe porque avisou rapidamente que a polícia estava chegando). E lembrei daquelas festas de antigamente, em que, de repente, todo mundo sumia junto, e reaparecia de uma vez, numa outra voltagem...

E a ficha caiu. Provavelmente numa conclusão óbvia e pouco original, mas caiu. São essas festinhas “animadas”, os baseados “inofensivos” e as cheiradinhas “eventuais” que financiam o upgrade do arsenal do crime e dão poder de fogo a qualquer mal-intencionado em busca de dinheiro fácil. E, se publicitário não prende traficante, pode ajudar a diminuir o consumo do que eles vendem.

O estrangulamento financeiro pode ser um começo na briga contra essa gente de sangue ruim. Talvez alguém tenha outra idéia por aí — ótimo. Se você não tiver a sua, aproveite a de alguém, roube a minha.

Mande um e-mail pros seus amigos, com o assunto:
“Nosso baseado matou o João.”

E não escreva nada. Deixe a mensagem em branco, num silêncio constrangedor. Ou faça um título melhor, um texto melhor. E não pare por aí. Olhe com desprezo toda vez que alguém acender um cigarro de maconha ou ameaçar cheirar uma carreira na sua frente. Trate com intolerância mesmo, diga pra sair da sua casa, ou saia você da dele. Não deixe o sujeito fingir que não percebeu sua desaprovação. Nem dizer que “não é nada demais”, que não foi ele quem comprou ou qualquer outra desculpa besta que todo mundo sabe de cor.

O consumo recreativo de droga financia o crime nas nossas cidades. Coloca arma na mão de moleque e arrisca a vida de um monte de gente inocente no meio da rua. Quem disser que é exagero, faz igual ao assassino do João, que matou e ainda curtiu: era só um boneco de Judas.


(Copiado do site Meio e Mensagem - seção Opinião - coluna Convergência)
enviada por Pop Zen






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